Artigos EDUCACAO DE IDOSOS: perspectivas e necessidades

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EDUCACAO DE IDOSOS: perspectivas e necessidades
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Rosane Magaly Martins

 

O movimento para introduzir pessoas idosas em cursos técnico-profissionalizantes e em cursos livres em universidades é um fenômeno recente e atende às necessidades sociais de capacitar e reorientar estas pessoas para uma nova fase de vida e possível reinserção no mercado de trabalho. A educação e a informação são alguns dos determinantes para qualidade de vida e favorecer a longevidade. Pessoas que não sabem ler, nem escrever ou interpretar uma informação que recebem numa consulta médica (por exemplo) não dominam seu processo de vida nem estão aptos para decidir acertadamente suas vidas.

 

Iniciadas em países desenvolvidos na década de 90 as universidades da terceira idade têm sido numerosas e bem sucedidas e contam, em seu projeto curricular, na sua maioria, com aprendizagem e atividades de informática. Um dos aspectos de relevância é que o idoso é inserido na vida acadêmica e passa a conviver com alunos jovens e currículos de disciplinas opcionais de seu interesse.

 

Além da capacitação, estas instituições e projetos oportunizam a socialização, atividades intergeraconais e o conseqüente entrelaçamento com os aspectos psicológicos que envolvem a auto-estima, o afeto, as emoções e a predisposição do idoso em viver sua vida de forma agradável.

 

Deveremos ter em curto espaço de tempo um incremento nestas iniciativas, devido ao rápido envelhecimento da população mundial. É previsto que por volta de 2050, pela primeira vez na história da espécie humana, o número de pessoas acima dos 60 anos será maior que o de crianças abaixo dos 14 anos.

 

Segundo os últimos dados da ONU, a população mundial deve aumentar, dos 6 bilhões no ano de 2000, para 10 bilhões em 2050. No mesmo período, o número de pessoas com mais de 60 anos deverá triplicar, passando de 600 milhões para 2 bilhões, ou seja, quase 25% da população do planeta terá 60 anos ou mais.

 

Além disso, pesquisas recentes mostram que cresce o número de pessoas que busca uma nova profissão depois da aposentadoria. As carreiras mais procuradas por este segmento são Turismo, Psicologia, Informática, Literatura e Artes, mostrando também que a socialização do idoso é prática fundamental para a preservação de sua saúde física e mental, uma vez que o processo de envelhecimento implica em alterações funcionais e comportamentais.

 

É um equívoco inferir que os idosos não são criativos, pois muitos artistas, músicos, escritores e cientistas produziram grandes obras após completar 70 (setenta) anos, como Bethoven, Picasso, Verdi, Wistin Churchill, dentre outros. A idade não determina, por si só, a criatividade e a capacidade de aprender. Na juventude predominam as funções que podem ser definidas como a inteligência fluida (agilidade mental, capacidade de combinação, orientação em situações novas) e com a idade aumentam as faculdades compreendidas no conceito de inteligência cristalizada (conhecimentos gerais, saber com base na experiência, vocabulário, compreensão de linguagem).

 

Desse modo, algumas teorias afirmam que envelhecer não diminui o rendimento intelectual e produz-se uma modificação qualitativa, ou seja, surgem outras modalidades do complexo ato de pensar. O processo de adaptação do idoso às novidades educacionais que se apresentam dependerá especialmente, das histórias pessoais de saúde e doença (pelas quais passou e no modo como as enfrentou), das condições educacionais a ele oferecidas (as quais aproveitou ou deixou de aproveitar), do apoio do ambiente familiar e social, e, especialmente, dos seus recursos econômicos (permitam ter o acesso a tecnologias que contribuam para a compensação das dificuldades cada vez maiores que lhe serão impostas pelo envelhecimento).

 

No processo de aprendizagem durante o envelhecimento, várias questões se apresentam. Uma delas, que vem sendo atualmente bastante enfatizada, tem sido a aprendizagem do uso do computador como ferramenta de trabalho ou de comunicação e fonte de informação, inseridos nos cursos das universidades abertas para a terceira idade. Tais questões residem na compreensão da forma pela qual essa aprendizagem afeta seu sistema de crenças e sua representação social. Aqueles que não puderam realizar ou alcançar o nível universitário, bem como aqueles que já o concluíram, têm tido a oportunidade de vivenciar ou re-vivenciar a convivência no meio acadêmico por meio das universidades para a terceira idade.

 

A educação permanente cria novas possibilidades às metas de vida dos idosos, em razão que, a partir do processo de reflexão sobre o complexo sistema sócio-político-econômico, o idoso constrói uma nova consciência de si mesmo, percebem as suas potencialidades e, conseqüentemente, obtêm uma melhor qualidade de vida.

 

Projetos na área da educação costumam estar voltados para crianças e jovens, para promover a formação integral para cidadania e prepará-los para o ingresso no mercado de trabalho. A criação de oportunidades educacionais para pessoas idosas continua sendo preterida, não obstante o aumento da expectativa de vida nos últimos tempos.

ENSINO A DISTANCIA

Identificar e analisar as transformações oriundas do envelhecimento humano possibilita estabelecer propostas educacionais eficazes, que contribuam para suprir as necessidades específicas dessa população e proporcionar a melhoria da sua condição de vida. Os idosos, muitas vezes, têm dificuldade em se libertar de certos padrões de comportamento, demonstrando resistência para assimilar novas orientações para resolução de problemas.

 

No tocante ao aprendizado e à memória, a utilização de experiências anteriores para solução de novos problemas pode afetar o processo aprendizagem. No âmbito das tecnologias da informação, por exemplo, pessoas da terceira idade costumam ter medo do novo e do desconhecido e, não raro, precisam de incentivo para começar. Por outro lado, a informática estimula a socialização.

Alguns estudos mostram que o uso da Internet pode ajudar a superar a depressão, a solidão e o desamparo, sentimentos relativamente comuns em idosos. Entretanto, a escassez de conteúdos específicos para idosos é uma das principais explicações para a aparente auto-exclusão dos mais velhos no mundo da tecnologia.

 

Trabalhos em didática direcionados ao idoso ainda são raros o que torna importante a busca de alternativas que possibilitem o aperfeiçoamento de programas educacionais com esta orientação. O Estatuto do Idoso dá respaldo para elaboração de projetos educacionais voltados a esta parcela da população (Lei 10.741/030) que prevê no artigo 20 que “O idoso tem direito à educação, cultura, esporte, lazer, diversões, espetáculos, produtos e serviços que respeitem sua peculiar condição de idade”. A questão metodológica está contida, no mesmo estatuto, no artigo 21 que preceitua que “O Poder Público criará oportunidades de acesso do idoso à educação, adequando currículos, metodologias e material didático aos programas educacionais a ele destinados”. O parágrafo primeiro deste mesmo artigo trata mais especificamente do tema proposto: “Os cursos especiais para idosos incluirão conteúdo relativo às técnicas de comunicação, computação e demais avanços tecnológicos, para sua integração à vida moderna”.

O uso de linguagem articulada, enfática e com a voz clara e audível, contribui na assimilação do conhecimento, principalmente para os idosos com algum tipo de dificuldade auditiva. No que diz respeito à educação a distância, é preciso levantar quais conceitos e recursos desta modalidade se adequam melhor à terceira idade. O ensino à distância poderia favorecer este público.

 

O ensino para idosos apresenta especificidades que precisam ser pesquisadas e sistematizadas a fim de desenvolver uma metodologia inclusiva e eficaz. Mas num primeiro momento, algumas especificidades podem ser destacadas, como:

 

·        Conhecimentos e experiências acumuladas – pessoas de idade avançada já chegam à sala de aula com uma imensa bagagem de vivências e conhecimentos que não podem ser desprezados pelo educador;

 

·        Velocidade de aprendizagem – em pessoas idosas, o ritmo de aprendizagem costuma ser mais lento e, portanto, deve ser respeitado, sob pena de gerar insegurança e bloqueios aos conteúdos tratados no curso;

 

·        Dificuldades de ordem visual – não é incomum em cursos de informática, por exemplo, observar idosos que necessitam, além da correção visual dos óculos, recorrerem a lupas para melhor visualizar imagens em um monitor de computador;

 

·        Dificuldades de ordem auditiva – idosos que apresentam algum tipo de problema auditivo requerem atenção especial e maior proximidade do professor na sala;

 

·        Problemas de locomoção – a dependência de instrumentos de locomoção como muletas ou cadeiras de rodas exigem cuidados na acomodação de alguns idosos ao local de estudo.

 

Estas são algumas características que tornam o ensino para idosos uma matéria que requer maiores considerações e uma atenciosa elaboração. Ao oportunizar o acesso aos avanços tecnológicos poderemos prolongar a vida dos indivíduos que podem se manter produtivos, mesmo em faixas etárias mais avançadas.

 

O processo de envelhecimento traz inevitáveis conseqüências para o indivíduo, quais sejam: perda dos seus papéis familiares e no mercado de trabalho estimula o afastamento das gerações, assim como o conflito e a indiferença, quando não o desprezo ou a tolerância forçada. No final da vida percebe-se idosos condenados ao isolamento social e cultural pela fragmentação da família, aposentadoria e por uma política insatisfatória de atendimento às suas necessidades.

 

Para superá-las busca-se o resgate da auto-estima, a alegria, a descoberta de suas potencialidades, o prazer de se expressar e ser ouvido são perspectivas para uma vida mais plena. Partindo de uma nova concepção de velhice, agora associada a dinamismo e lazer, o público idoso começa a participar mais do espaço público. Logo, é preciso criar estratégias de sociabilidade que permitam aos idosos estabelecer novas relações sociais e distanciar-se cada vez mais do isolamento.

 

Para alguns especialistas, a Universidade pode cumprir plenamente esta função de reinserção do idoso no meio social. As microuniversidades temáticas, voltadas especialmente para esse público, seriam capazes de fornecer assistência médica entre outras, além de proporcionar ensino nos vários campos do saber e propor atividades culturais.

 

O ensino à distância traz algumas vantagens, como por exemplo, a possibilidade de adequação ao ritmo de cada um. Além disso, existe a adequação de conteúdos a condições de aprendizagem especiais. Há ainda, como outro efeito bem-vindo, as oportunidades socialização advindas da interação, que podem se constituir num poderoso “remédio” contra a solidão. Sem falar na manutenção da atividade cognitiva, proporcionada pela formação continuada e o fornecimento constante de estímulos, exercícios e atividades.

 

O cuidado com o desenvolvimento de programas educacionais para o público da terceira idade é, portanto, de grande importância no desenvolvimento de participação mais ativa da população idosa na vida em sociedade e, em conseqüência, fornecer instrumentos que favoreçam sua autonomia e independência aliada à longevidade e envelhecimento ativo.

Rosane Magaly Martins, escritora, advogada pós-graduada em Direito Civil, com especialização em Mediação de Conflitos pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Também é pós-graduada em Gerontologia (FURB/2005) e Gerencia em Saúde para Adultos Maiores (OPS/México) com formação docente em Gerontologia (Comlat/Colômbia). É autora de diversos livros, sendo os últimos “Diário de uma aborrecente” (Estúdio Criação/2009) e “Martins ao Cubo” (Odorizzi/2008). É fundadora e presidente da ONG Instituto AME SUAS RUGAS e participa desde 2007 na Europa e na América Latina de congressos, cursos e especialização que envolve o tema. Organiza a publicação da coleção de livros Ame suas rugas 1, 2 e 3 lançados no Brasil e em Portugal.

Contatos: rosane@amesuasrugas.org. Web WWW.rosanemartins.com